Mi causo, su causo

Archive for junho 2011

Sabemos que nem tudo é alegria no convívio com cachorros. Eles são carinhosos e companheiros, mas podem mudar de humor a qualquer momento. Assim, exatamente como o ser humano. Como sempre fui muito próxima de cães, sobraram mordidinhas aqui, arranhões ali e as belas cicatrizes, além das histórias divertidas (para os outros, claro) para contar.

A primeira mordida foi quando eu tinha uns oito, nove anos. Estávamos na casa de alguém em algum lugar (interior do RJ, provavelmente) e um grupo de crianças, incluindo eu, decidiu subir para o primeiro andar escalando o muro da casa. Ideia idiota, como muitas das que temos antes de descobrir o que é ser “racional”. Ou “inteligente”. Ao subir, as crianças decidiram aguardar do outro lado da grade e esperar pelo consentimento do dono da casa, pois havia um considerável número de cachorros lá dentro.  Menos a criatura que vos escreve. Como sempre fui macho pra cacete, resolvi pular logo a grade e invadir o terreno de entrada da casa. Os cachorros não aprovaram minha atitude, me punindo com quatro mordidas na bunda. Bem-feito pra espertona aqui, que ficou dias sem conseguir sentar direito.

Lembro bem da segunda. Uma família tinha acabado de se mudar para a casa ao lado e meu irmão e meu primo ficaram loucos pela filha do casal. Pediram para eu tocar a campainha e chamar a menina para, em seguida, chegar, numa sensacional “coincidência”. A missão teria sido um sucesso se a garota não tivesse um rat…, ops, cachorro insuportável que escapou pela brechinha do portão aberto e voou em minha bunda. Se bem conheço os dois, devem ter rido bastante e se aproximado da menina, ignorando minha dor lancinante.

As outras duas foram “familiares”, veja só. O Nick era um pastor canadense SINISTRO e MALVADO que comia criancinhas. Mentira, ele não chegava a tanto, mas, da família (mãe Branquinha – a minha favorita de todos os caninos – e irmã Shana), ele era o mais agressivo. Os três ficavam na garagem da casa, bem ampla, que era separada da cozinha por um portão baixo de madeira. Rá, quantas vezes não sacaneei meus amigos fingindo que ia abrir o portão. Já presenciei três tentando passar pela porta da cozinha ao mesmo tempo! Como eu ia escrevendo, Nick, um dia, decidiu abrir o portão e circular pela casa. Imaginem a minha surpresa ao chegar na cozinha e dar de cara com aquele lobo wannabe assustador me olhando e desejando minha carne suculenta. Acho que demonstrei tanto medo que a mensagem enviada a ele foi “me devore, ó cão esfomeado!”. Nick não chegou a me morder, mas me arranhou e eu saí correndo, fechando a porta e me escondendo. Nunca vou me esquecer daquele cão. Nem do momento de pânico absoluto.

Dusch era uma linguicinha muito mala que viveu conosco por anos. Quando pequeno, comeu vários chinelos meus. E um pente e uma caixa de anticoncepcional. Sente o naipe do surtado. Sentia ciúme doentio da minha mãe, especialmente comigo. Um dia, fui entregar o telefone pra ela e o bicho decidiu que eu era o inimigo, abocanhando meu braço. Parece que não, mas os dentinhos daquele ogro eram bastante afiados, pelo menos o suficiente para deixar um ovo em meu braço. Por precaução, passei a evitar minha mãe, mesmo morando na mesma casa.

Em Portugal, não há bilheteria no metrô. Há máquinas, somente. Em Lisboa, sofremos um pouco no início, mas depois pegamos o jeito. No Porto, a situação ficou periclitante. Ao pegarmos o metrô na estação de trem, percebemos que não só não havia bilheteria como vários aparelhinhos de validar ticket (como esses amarelos que vemos nos ônibus cariocas) ficavam espalhados pela estação. Para que tantos? Nós teríamos que ficar encostando o ticket toda vez em que passássemos por um? Que beleza, seria melhor ligar pra agente de viagens e pedir mais uns 15 dias, pra poder conhecer a cidade.

Logo de início, um senhor deveras simpático se ofereceu para nos ajudar. Tão gentil. Tratou logo de “ficar com” umas moedinhas só pra nos lembrar que tem gente esperta no mundo todo. Nas outras poucas incursões, pegamos o ticket, validamos em uma catraca e bola pra frente.

Dia de ir embora, que tristeza. Passeamos pela linda cidade e fizemos algumas comprinhas. Tomamos até Fanta de abacaxi, que inédito. O tempo foi passando (e você sabe que o tempo passa rápido quando a gente se diverte) e, de repente, percebemos que estávamos atrasados. Pegamos as malas no hotel e corremos para o metrô a caminho do aeroporto. Para chegar no destino, era preciso fazer baldeação. Saltamos na estação indicada e ficamos esperando o trem final.

Ah, sim, vale ressaltar que em TODOS os trens havia um display bastante indiscreto avisando ao passageiro que quem tentasse “burlar” o sistema de passagens pagaria 90 EUROS. Uma bagatela.

Entramos no vagão e demos de cara com um grupinho de fiscais com maquininhas na mão. Ficamos tranquilos, pois tínhamos comprado o ticket, mas rolou um certo frio na espinha quando um deles veio em nossa direção. O sujeito pediu os tickets e passou na tal máquina.

O horror. Sem saber, nós não tínhamos comprado a segunda passagem, assim estávamos fora da lei. Na Europa. Com pouco dinheiro. Atrasados para o voo.

Meu olho encheu d’água (espontaneamente) e implorei para o cara não nos multar. Explicamos que éramos do Brasil e não sabíamos como funcionava o esquema de validação dos tickets.

Não sei se o sujeito esperava um dinheirinho ou o que estava rolando, mas ele começou a apresentar várias alternativas, uma mais doida do que a outra. Eu já estava fazendo as contas, imaginando quanto teria que economizar por dia pra bancar o prejuízo. Depois de alguns minutos, pediu para que descêssemos na estação anterior à do aeroporto e comprássemos mais um ticket. Atrasados para o voo. O horror. E ainda ficamos um tempo esperando pelo próximo trem. Aí, já era pânico.

Chegamos no aeroporto correndo, esbaforidos. César foi segurar o voo enquanto eu fazia o check in. A atendente simulou um esporro, mas eu fui logo contando a história triste em tom de voz assustador e bastante irritado e ela parou. Só faltava essa.

Embarcamos com atraso, mas deu tudo certo.

Rogamos praga para o metrô do Porto e aquele fiscal safado até hoje.

Voar, voar, subir, subir. Viajar sempre foi – e ainda é – uma das coisas mais fascinantes que existe. Sempre curti demais as temporadas em Itatiaia, Caxambu e, posteriormente, Lumiar, mas chegou o momento em que eu desejava um programa mais distante, além-Atlântico.

A princípio, eu e César iríamos a Lisboa, Porto, Madri e Barcelona. Bastou um sujeitinho que nem conhecíamos dizer “visitar a Europa e não ir a Paris é sacrilégio” para resolvermos fazer o TREMENDO sacrifício e incluir a Cidade Luz no roteiro.

Capricharei no clichê dizendo que a viagem mudou nossas vidas, foi absolutamente fantástico conhecer outras culturas e diferentes hábitos, blá, blá, blá. O que sempre surpreende é o quão jeca podemos ser numa hora dessas.

Nos viramos muito bem, considerando que era praticamente nossa primeira viagem ao exterior (eu já tinha ido a Argentina, o que não conta muito, já que há mais brasileiros em Buenos Aires do que Copacabana). Falamos portunhol em Madri e tentamos compreender alguma coisa do catalão em Barcelona. Em Paris, lançávamos logo o “Parlez-Vous Anglais?”, recebendo SEMPRE “a little” acompanhado de leve carinha de bunda como resposta, mas conseguíamos nos comunicar.

A surpresa foi Portugal. Justamente no país com a língua mais semelhante, passamos por situações surreais (e, por que não, bizarras).

No terceiro dia, programamos uma viagem a Sintra. Compramos passagem e ficamos fazendo hora na plataforma, ao lado do trem, batendo papo e apreciando o lindo visual da estação do Rossio. 10 minutos antes da hora prevista para a viagem, as portas começam a se fechar. Você, carioca, sabe que atrasos fenomenais e absoluta falta de compromisso são parceiros do nosso dia-a-dia, então quando poderíamos imaginar que o maldito trem português teria uma pontualidade nem britânica? Como um bom frequentador de Maracanã e, portanto, metrôs cheios (e cheios de gente mal educada), César correu e começou a segurar a porta pra eu entrar.  Entrei toda espremida e com alguns hematomas, reclamando da falta de respeito dos portugueses. “Onde é que já se viu deixar a estação antes do combinado??”. Os passageiros nos olhavam meio atônitos e ficávamos mais indignados ainda.

Sentamos, esbaforidos, ainda revoltados com a situação, o mico, o pacote completo.

Nisso, a porta do vagão se abre e entra um grupo de pessoas. ??? Não há palavras que possam expressar como ficamos perdidos e desamparados naquele momento.

Foi quando percebemos que em Lisboa (e isso se aplica a todos os lugares que conhecemos por lá) é possível abrir a porta do metrô/trem apertando um simples botãozinho. Nada de força bruta, xingamentos, gente sendo esmagada. Pura e simples evolução.

1 X 0 trem lisbonense.

Que acabou virando uns 5 X 0, mas os outros golaços (ou frangos) vou deixar para contar outro dia.

Quando completei 16 anos, resolvi comemorar com um churrasco/showzinho na garagem de casa. Como sempre gostei de ser do contra, não pensei em pagode, embora goste bastante. Chamei a galera pra tocar rock e metal. Numa rua de velhinhos, isso seria um must!

Os meninos chegaram mais cedo para fazer o reconhecimento de área. Me ajudaram a montar o palco e, em seguida, foram passar o som.

Nos primeiros acordes de “Highway Star”, música escolhida para abrir os trabalhos, eu achei que todos os vidros da casa se quebrariam. Fiquei em pânico e já visualizei a cena: Dona Vera chegaria bufando e berrando “PAREM AS MÁQUINAS” cheia de bobs nos cabelos, pronta pra xingar oito gerações de minha família (incluindo ela mesma).

Decidi me antecipar e ser poupada de um esporro fenomenal na frente dos amigos, então fui até ela pra tentar negociar ou, quem sabe, jogar um calmante light em sua bebida. Algo que pudesse apagá-la durante quatro horas, nada grave. Subi as escadas tremendo e percebi que a luz do banheiro estava acesa. Foi quando pensei numa segunda cena: Dona Vera com o batom borrado, me fuzilando pelo espelho  e ainda berrando “PAREM AS MÁQUINAS” cheia de bobs nos cabelos.

Entrei no banheiro esperando um arremesso de escova de dente ou algo do gênero. Foi quando tive a surpresa. Dona Vera se maquiava batendo a cabeça como se estivesse num show do Slayer. Quando me viu, disse:

– Nossa, Nanda, que som maneiro.

Acho que perdi, ali, uns 13 quilos de tensão.

Se não fosse pela vizinha ligando cinco vezes pra dizer que seu marido estava morrendo, teria sido sucesso absoluto. Mas ainda bem que não demos atenção a ela, que quase ficou viúva nos três anos seguintes, sempre em meu aniversário.

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Cabe mais uma rapidinha da Dona Vera. Entro no carro com ela e meu irmão e, como era de praxe, ligo o som. Estava tocando algum rock sensacional, como Whitesnake ou Led Zeppelin. Dona Vera, cheia de onda, pergunta:

– O que é isso? The Puppets?

Cá entre nós, este nome causaria muito mais impacto do que Deep Purple. Fica a dica, Gillan!

Amiga querida, que é gringa, vivia dizendo:

– Vamos jantar no restaurante em que meus roomates trabalham?

O tempo passou e chegou o momento em que deveríamos fazer o “sacrifício”. Pus roupinha básica, calça jeans e tamanquinho, e fui pra casa da gringa. Ao perguntar o nome do restaurante,  a resposta foi: “Otelo”. Eu nunca tinha ouvido falar neste lugar, mas pensei “deve ser uma birosquinha em Copacabana, de repente um italiano, que vale conferir”.

Cinco minutos antes de sair, ela resolve confirmar o nome do estabelecimento com o outro roomate. A resposta dele me arrepiou to-di-nha:

– Gero.

Ninguém sabe o quanto gelei. Eu tinha acabado de mudar de emprego, estava dura feito côco e, mesmo que não estivesse, não tinha bala na agulha pra bancar um jantar no Gero. Tá, uma garrafa d’água, de repente, ou um pãozinho do couvert. E só. Comentei com ela que tratava-se de um lugar caríssimo, badaladíssimo, e que nós provavelmente teríamos que lavar pratos ou leiloar um rim pra pagar a conta. A gringa foi taxativa:

– Relaxa, a gente dá um jeito.

E que jeito. Acabou que um dos meninos era garçom e o outro, sommelier, e os dois nos deram (e, em alguns momentos, nos acompanharam em) um jantar delicioso, com couvert, aperitivos, prato principal e quatro, eu disse QUATRO, garrafas de vinho.  0800 total. Saímos de lá trôpegas e felizes e prontas pra tirar onda com a mulambada.

É pena que minha querida amiga voltou pra Suécia, porque a sobremesa ficou marcada pra outro dia. Na Forneria.

Nada como começar um blog de causos contando uma situação que vivi quando criança. Ou melhor, vivo até hoje, mas começou um pouquinho depois de dar a minha mãe o prazer de não trocar mais minhas fraldas.

Cavalos são lindos, elegantes, imponentes. Graças a eles, não curto filmes de guerra e faroeste, pois detesto ver os bichos sendo abatidos. Em suma, adoro cavalos. De preferência, a 100 metros de distância. Não tente me colocar em cima de algum exemplar da espécie, para a sua própria segurança.

Quanto eu tinha uns dois anos, estava num hotel fazenda do interior do RJ com a família. Lá pelas tantas, minha mãe, apaixonada por cavalos, resolve sugerir um passeio equestre. Estava todo mundo admirando o belo terreno quando, de repente, um dos pangarés começa a empinar. Ah, a solidariedade dos cavalos é uma coisa linda mesmo. Tanto que o bicho que estava sendo guiado por minha prima, logo a nossa frente, começou a fazer o mesmo. Em seguida, naturalmente, foi a vez do cavalo onde eu estava com minha mãe. Dona Vera, pessoa esperta, pensou “não posso deixar a Nanda aqui em cima, correndo o risco de ser ejetada do cavalo”. O que fez? Me jogou no chão. O que teria sido especial se eu não tivesse caído em cima de uma poça d’água e chorado até desidratar.

Este foi o trauma 1.

Poucos anos depois, eu passeava com mais duas amigas (no mesmo cavalo) quando o bicho leva um susto e, pá, dispara pelo meio do mato.

Você já teve essa sensação? Se não, recomendo. Acho que a taquicardia passou quando completei 18 anos.

Trauma 2.

O último foi algum tempo depois, quando eu ainda era criança e passeava em Nogueira, cidade aprazível que fica perto de Petrópolis. Estava em cima do cavalo sendo “escoltada” por meu padrasto de um lado e um amigo dele do outro. À esquerda do amigo, o rio, animadíssimo, cheio de correnteza. Enquanto relaxava, mentalizando coisas boas e tentando esquecer dos outros episódios, o bicho começou a empinar. Uma maravilha. Nada como superar um trauma vivendo situação semelhante, certo? Desta vez, pelo menos, ninguém me jogou. Mas eu poderia ter caído mesmo numa versão mais hardcore da poça.

Também morro de medo de vacas e bois. Mas esta história é constrangedora demais e preciso tomar um goró antes de começar a escrever.



  • Nenhum
  • César: Meu amor, favor me incluir entre os apaixonados por Lumiar. Precisamos agitar logo o nosso retorno. Aguardo as próximas histórias! Beijoca.
  • Erika: Nanda,vc e' demais.Whitesnake tambem passou a ser um marco em minha vida.Ouvia tanto que "apaixonei" tambem.Alem de me deparar toda vez que entrava no
  • César: Tim tim. Que orgulho da minha mulher. Além de linda, flamenguista e roqueira, ainda escreve bem demais. Voltei pra ler de novo. Parabéns pelo

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