Mi causo, su causo

O Ópio Maldito do Povo e da Pova

Posted on: 24/10/2013

O procedimento parecia ser simples. Assim como no filme de Michel Gondry, ela desejava entrar na clínica e apagar todos os registros relacionados a seu time da memória. Mas por quê? Não aguentava mais a taquicardia, palpitações e garganta entalada. Havia decidido que seria uma menina normal. Poderia não gostar de comédias românticas e não saber cozinhar, mas permaneceria fiel à sua linda coleção de esmaltes e passaria a ver jogos de vôlei de praia, que, dizem as estatísticas, ainda não mataram ninguém do coração. 
Procurou a CTRL X SEM CTRL V Corp. em Junho. Alguns conhecidos, que tinham usado seus serviços para outros fins, como se desligar de namoradas ou abandonar a obsessão por cebolas, recomendaram o estabelecimento, reforçando o cuidado e carinho com o qual a operação era feita.
A coleta de itens de seu time foi dolorosa. Eram centenas de fotos, faixas, camisas, objetos decorativos – que iam de luminária a escovas de dente, revistas antigas. Todos eles deveriam ser descartados. Só não levou o namorado, porque ele havia prometido que nunca mais veria um jogo em sua companhia. Embora ela não acreditasse na promessa, adorava sua vitamina de morango ao leite e as massagens em seus pés que fazia no sofá da sala. Merecia o crédito.
Chegou o dia do procedimento e a ansiedade não permitia que ela pensasse em sua decisão. Só queria ficar livre do sofrimento. Ora bolas, nos últimos cinco anos seu time só tinha dado vexame, quase caindo para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e sofrendo goleada de times inexpressivos.
Os técnicos chegaram em sua casa e fizeram a preparação. Em poucos minutos, ela dormiria e, em cinco horas, não se lembraria mais que um dia havia sido uma torcedora fanática.
Como esperado, durante o processo se recordou de muitos jogos divertidos ao lado dos amigos e amores, vitórias fantásticas, sua festa de 10 anos, que teve como tema o futebol. Lembrou-se também dos últimos 8 aniversários, celebrados no Maracanã. Os blogs escritos, discussões via Twitter, amizades que fez, desafetos que desfez graças ao time. Porém, a última hora e meia seria dedicada às lembranças ruins. E aí ela reviu a derrota para o maior rival na final da Libertadores, a briga com o amigo-irmão via Facebook – como o sujeito podia ter virado torcedor de outro time, do nada, após anos de torcida frenética ao seu lado no estádio? O dia em que quebrou o pé e a TV, ao derrubá-la depois do golaço adversário. É, futebol tinha mesmo virado bad karma, como sempre dizia. 
Ao acordar, viu o quarto vazio e sentou-se na cama, perdida. Havia se desligado de uma das coisas mais importantes de sua vida e precisaria substituí-la, mas agora optaria por um vício mais saudável. Cerâmica, talvez. Por que não fazer um curso de Estudos Vikings ou Hábitos de Habitação de Formigas?
A princípio, o procedimento havia dado certo e ela não vinha comentando sobre o assunto. Mas Joca, o namorado, já percebeu que, durante o jogo do seu time, enquanto ele se esforça pra assistir aos Simpsons, ela se tranca no quarto alegando que vai estudar. E sintoniza na TV para ver a partida em silêncio. Ele jura que no jogo de ontem ela disse baixinho “juiz ladrão!”.
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  • César: Meu amor, favor me incluir entre os apaixonados por Lumiar. Precisamos agitar logo o nosso retorno. Aguardo as próximas histórias! Beijoca.
  • Erika: Nanda,vc e' demais.Whitesnake tambem passou a ser um marco em minha vida.Ouvia tanto que "apaixonei" tambem.Alem de me deparar toda vez que entrava no
  • César: Tim tim. Que orgulho da minha mulher. Além de linda, flamenguista e roqueira, ainda escreve bem demais. Voltei pra ler de novo. Parabéns pelo

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