Mi causo, su causo

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O procedimento parecia ser simples. Assim como no filme de Michel Gondry, ela desejava entrar na clínica e apagar todos os registros relacionados a seu time da memória. Mas por quê? Não aguentava mais a taquicardia, palpitações e garganta entalada. Havia decidido que seria uma menina normal. Poderia não gostar de comédias românticas e não saber cozinhar, mas permaneceria fiel à sua linda coleção de esmaltes e passaria a ver jogos de vôlei de praia, que, dizem as estatísticas, ainda não mataram ninguém do coração. 
Procurou a CTRL X SEM CTRL V Corp. em Junho. Alguns conhecidos, que tinham usado seus serviços para outros fins, como se desligar de namoradas ou abandonar a obsessão por cebolas, recomendaram o estabelecimento, reforçando o cuidado e carinho com o qual a operação era feita.
A coleta de itens de seu time foi dolorosa. Eram centenas de fotos, faixas, camisas, objetos decorativos – que iam de luminária a escovas de dente, revistas antigas. Todos eles deveriam ser descartados. Só não levou o namorado, porque ele havia prometido que nunca mais veria um jogo em sua companhia. Embora ela não acreditasse na promessa, adorava sua vitamina de morango ao leite e as massagens em seus pés que fazia no sofá da sala. Merecia o crédito.
Chegou o dia do procedimento e a ansiedade não permitia que ela pensasse em sua decisão. Só queria ficar livre do sofrimento. Ora bolas, nos últimos cinco anos seu time só tinha dado vexame, quase caindo para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e sofrendo goleada de times inexpressivos.
Os técnicos chegaram em sua casa e fizeram a preparação. Em poucos minutos, ela dormiria e, em cinco horas, não se lembraria mais que um dia havia sido uma torcedora fanática.
Como esperado, durante o processo se recordou de muitos jogos divertidos ao lado dos amigos e amores, vitórias fantásticas, sua festa de 10 anos, que teve como tema o futebol. Lembrou-se também dos últimos 8 aniversários, celebrados no Maracanã. Os blogs escritos, discussões via Twitter, amizades que fez, desafetos que desfez graças ao time. Porém, a última hora e meia seria dedicada às lembranças ruins. E aí ela reviu a derrota para o maior rival na final da Libertadores, a briga com o amigo-irmão via Facebook – como o sujeito podia ter virado torcedor de outro time, do nada, após anos de torcida frenética ao seu lado no estádio? O dia em que quebrou o pé e a TV, ao derrubá-la depois do golaço adversário. É, futebol tinha mesmo virado bad karma, como sempre dizia. 
Ao acordar, viu o quarto vazio e sentou-se na cama, perdida. Havia se desligado de uma das coisas mais importantes de sua vida e precisaria substituí-la, mas agora optaria por um vício mais saudável. Cerâmica, talvez. Por que não fazer um curso de Estudos Vikings ou Hábitos de Habitação de Formigas?
A princípio, o procedimento havia dado certo e ela não vinha comentando sobre o assunto. Mas Joca, o namorado, já percebeu que, durante o jogo do seu time, enquanto ele se esforça pra assistir aos Simpsons, ela se tranca no quarto alegando que vai estudar. E sintoniza na TV para ver a partida em silêncio. Ele jura que no jogo de ontem ela disse baixinho “juiz ladrão!”.
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Tanto tempo sem escrever e somente um assunto poderia gerar post de gala: Lumiar. O vilarejo paradisíaco que conseguiu mudar minha vida.
Dona Vera tinha acabado de se separar e estava precisando desopilar. Uma paciente sua comentou que tinha uma casinha na serra e ela pensou que poderia lhe fazer bem respirar um ar puro e fresco. Foi e se encantou. Pelo menos, o suficiente para me convocar a ir na semana seguinte.
Fomos 10 pessoas, de ônibus, com direito a “local” armado dentro do coletivo. Aventura do início ao fim: chegamos lá e o portão do condomínio estava fechado, então tivemos que pular o muro. A casa era muito pequena e ficou complicado arrumar espaço para todos, mas demos um jeito. E tivemos um final de semana impecável, que fez com que cada um ali quisesse voltar. E voltar. E voltar novamente.
Passei a ir regularmente com mamãe. Esta é uma paixão que sempre dividimos: viajar para lugares frios, no meio do mato. De Itatiaia a Teresópolis, se tivéssemos que enfiar o carro na lama era sempre mais interessante!
Apresentei a cidade a uma amiga querida. Desnecessário, porém divertido, dizer que ela também se apaixonou perdidamente e decidimos alugar uma casinha onde cabiam (confortavelmente) quatro pessoas. Colocávamos 15, 20, na maior farra. Um dormindo por cima do outro, grupos dividindo colchão de solteiro com utensílios para churrasco, cozinha lotada e banheiro também. Sexta-feira, saíamos do colégio em direção à rodoviária. Pegávamos o último ônibus para Friburgo, onde a temperatura já estava 10 graus mais baixa. Trocávamos de roupa no ponto, pegávamos carona sem medo nenhum. O importante era estar lá o mais rápido possível.
Alugamos a casinha por algum tempo. Depois, minha mãe acabou optando por casas maiores e a amiga decidiu seguir carreira solo. Continuávamos indo com frequência, levando amigos e aumentando a seita de adoradores de Lumiar.
Aliás,  essa é uma coisa que sempre me surpreendeu. Certa vez, perguntei a um amigo se ele tinha curtido o lugar e a sua resposta foi categórica: “e tem como não gostar de Lumiar?”. É, eu concordo. Não sei se é o ar, a água, o cheiro. Ao passar de Mury, os problemas decidem voltar para a cidade grande, eu acho. Percebem que vai ser difícil lutar com toda aquela (peço perdão pelo clichê) magia. É derrota garantida.
Tive a chance de estar com minha mãe em sua última viagem a Lumiar. Ela já estava bem debilitada, mas não abriu mão de seu maior prazer. Sempre que eu pintar por aquelas bandas, vou lembrar do cheirinho do café da manhã cheio de doces, os almoços maravilhosos, a música alta. O som do vento batendo nas folhas das bananeiras ao lado da varanda, os cachorros brincando.
Sinceramente? Duvido que encontre alguma lembrança que possa competir com essa.

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Este é apenas um causo sobre Lumiar. O primeiro de 1000, eu diria.

Quando somos crianças, é tudo aventura. Já repararam? Montanha-russa, cachoeira cheia de correnteza, tirolesa, são todos programas que não oferecem risco nenhum para o ser humano, divertidos e edificantes. Quando passamos a ter mais consciência, percebemos que não é bem assim. Visitar parque de diversões com manutenção constante, sem histórico de gente arremessada de algum brinquedo, e bóia presa na pedra não fazem mal a ninguém, afinal.

Com 8 anos de idade (pode ter sido 9 ou 10), estava em Itatiaia com família e amigos. O tempo estava cinza, carregado, e o volume da água, subindo. A heroína aqui decidiu se arriscar em um pedaço onde havia corda, mas foi levada pela correnteza. Veja bem, nessas horas a gente tira força sei lá de onde e percebe que a vida é curta, mas pode durar uns 70, 80 anos. Apressado come cru, caramba, e eu nem tinha viajado ainda para o exterior! Comecei a bater braços e pernas e consegui me agarrar a uma pedra. Lembro da cara de desespero das pessoas a minha volta. A verdade é que o trecho nem era tão perigoso, MAS, se eu não conseguisse me segurar, a coisa poderia ficar um tanto feia. Como crianças não têm mesmo noção do perigo, aí é que fiquei com vontade de explorar cada canto daquele poço, como se quisesse me vingar daquela arrogância toda.

Era verão e eu, adolescente branquela frustrada que adoraria ter nascido com cor de jambo, praticamente me mudei para a praia com os amigos. Lá pelas tantas, resolvemos dar um mergulhinho. Grande ideia. Eu já sabia nadar (o episódio supracitado facilitou bastante o aprendizado), mas o mar estava mexido, cheio de ondas, surfistas, bodyboarders. Só faltavam o tubarão e Roy Scheider berrando na areia. Entrei na água com uma amiga e começou a festa de caixotes. Quando eu conseguia chegar à superfície, vinha uma onda e me levava pra baixo de novo. Enquanto tentava uma subida definitiva, senti minhas pernas se enroscando na nuca de alguém e pensei que poderia ter sido resgatada ou, então, a morte tinha vindo me buscar de biquini, mas, na verdade, era a tal amiga, que também não encontrava forças pra sair. Quando as ondas deram um descanso, ela pegou em minha mão e disse “me tire daqui, por favor”. Bem, se eu não tivesse tido sucesso não estaria aqui pra escrever, não é? Neste caso, não fiquei com vontade de sair nadando até a África. Ganhei um medo que só foi se agravando com o tempo e só entro no mar se ele estiver uma piscina, sem absolutamente onda nenhuma. Daqueles cheios de crianças com maiô de babado florido, fugindo da onda que chega na areia como quem corre do diabo.

Ainda compro uma piscininha de plástico pra usar na praia, em dias de intenso calor. Me aguardem. Doações de baldinho com pá serão benvindas.

Ainda moleca, descobri os vinis. O que me encantou primeiro foi “A Arca de Noé”, criação do Vinicius de Moraes com diversos artistas nacionais cantando músicas fofas sobre bichos. Fantástico, mas, convenhamos, Elis cantando “A Corujinha” não é nada rock and roll.
Em seguida, veio a primeira porrada, o “Greatest Hits” do Queen. De tanto ouvir “Bicycle Race”, “Fat Bottomed Girls” e “Bohemian Rhapsody”, quebrei a bolacha. Nem preciso comentar que meu ex-padrasto, o dono, ficou revoltado. Mal sabe ele que aquele disco mudaria minha vida.

A verdade é que o rock sempre esteve presente. Das fitas cassetes que eu sabiamente surrupiava de meu ex-cunhado aos vídeos da recém-lançada MTV, eu sempre curti riffs de guitarra e cabelões esvoaçantes.

Quando cheguei à adolescência, comecei a andar com um grupo formado por aspirantes a rock stars, músicos genuínos e entusiastas. E foi aí que conheci o rock clássico de verdade: Deep Purple, Black Sabbath, Jethro Tull. Era impossível não prestar atenção, já que essa galera até gostava de música brasileira, mas nas viagens e festinhas só rolava rock. Lembro de um churrasco em que quase fui linchada por escolher meia dúzia de pagodinhos.
Não posso deixar de falar de minha paixão, Whitesnake. Comprando um CD aqui e outro ali consegui fechar a coleção. E desenvolver um amor verdadeiro pelo David Coverdale, que, durante muito tempo, enfeitou a parede do meu quarto com seu biquinho sensual. Acredito que a farofa tem que ser apreciada em todas as suas formas: da cheia de ovos às bandas cheias de luzes e permanentes!

O primeiro show foi da banda australiana Spy Vs Spy no finado Imperator, que ficava no Méier. Eu e dois amigos pegamos um ônibus até o Centro, outro de lá para o Méier e chegamos ao destino final. Malandrões que éramos, decidimos “começar os trabalhos” com cachaça, bebida que o orçamento suportava. Resultado? Um nariz sangrando, três jovens zuretas e um leve atraso pra entrar. O show foi ótimo, especialmente para os pirralhos que iniciavam sua carreira de shows de rock.

Num desses Hollywood Rock da vida, menti para a minha mãe e peguei o 409 pra Apoteose com minha melhor amiga. Acho que nunca me senti tão poderosa. Pulamos muito durante o show do Aerosmith, nos sentindo adultas über modernas e independentes. Joan Jett e Patti Smith perdiam.

Foram muitos. Diversos. Incontáveis shows. Rock clássico, BRock, heavy metal, indie, death metal, Paul McCartney (não há como categorizar o Macca), hard rock. Acredito que apenas o EMO esteja de fora (e que assim permaneça). Meu bolso que o diga.

Com esta palhaçada de carteirinha de estudante versus preços absurdos, pisei no freio. Com muita dor no coração, reconheço, afinal poucas coisas me dão tanto prazer quanto um bom show de rock. Ainda bem que restam o mp3, os CDs que não foram descartados e as noitadas embaladas pelos djs inspirados.

Brindemos ao rock.

Comecei a gostar de verdade de futebol na adolescência. Dividia quarto com irmão mais velho, então era “convidada” a assistir desde clássicos a jogos da terceira divisão do campeonato sergipano. Na maior democracia.

A primeira vez em que vi o Flamengo jogar foi em 1994. Já tinha ido ao Maracanã pra ver o Vasco, na despedida do Roberto Dinamite, numa tentativa frustradíssima de meu ex-cunhado de converter a família. O time dele perdeu de 2 X 0, com direito a gol do Bebeto pelo La Coruña. Que fase. Curiosamente, minha primeira partida do Flamengo foi contra o Vasco. Fui com família e namorado de uma amiga da escola e nunca vou me esquecer do momento em que subi a rampa com as mãos nos ombros de um carinha que nunca tinha visto cantando “Uh, tererê!” e quando vi o gramado pela primeira vez. O Flamengo ganhou de virada e fiquei me achando o ser mais pé-quente da galáxia. Tolinha.

Nos anos seguintes, eu e meu irmão íamos a TODOS os jogos de meio de semana. Os mais vazios, chinfrins. Ele se recusava a me levar em clássicos por medo de me expor a qualquer muvuca, o que faz sentido (agora, porque na época eu ficava com muita raiva). Ficávamos quase deitados na arquibancada e sempre saíamos irritados, pois o Flamengo marcava primeiro e deixava o time adversário empatar no final. Eu disse sempre? Pois era SEMPRE. Foi aí que comecei a ter dúvidas sobre minha sorte.

Foram várias finais, de Super Copa a Copa do Brasil, passando por perrengues como tênis perdido no meio do empurra-empurra da entrada e roleta quebrada em jogo lotado. Teve também o dia em que engasguei com uma porcaria de bala Mentos no vagão do metrô e só fui parar de tossir dois dias depois. Tudo por causa da paixão pelo futebol. Sempre disse a minha mãe que ela devia ter me ensinado a gostar de balé clássico ou nado sincronizado. Minha vida teria sido bem mais fácil.

Na final de 2009, meu então namorado – agora marido – me levou com o irmão e um grupo de amigos ao jogo. Na entrada, aquele desespero. Entenda uma coisa: não é somente a sensação de que a qualquer momento o ar vai desaparecer ou você vai ser ejetada da multidão, é o pânico de alguém olhar pra bunda da namorada daquele negão enorme. Aí, o bicho pega. Mas nada disso aconteceu e conseguimos entrar no setor das cadeiras azuis.

Olha, poucas vezes me emocionei tanto com o que vi. O Maracanã estava absolutamente lotado e a torcida pulava sem parar… acima de nossas cabeças. E você, caro frequentador do Maraca, sabe que nada ali é rígido, senão despencaria em dois tempos. Só que parecia MESMO que a arquibancada iria romper a qualquer momento. Estávamos quase debaixo de uma fenda e dava pra ver perfeitamente as estruturas balançando sem ritmo, como se uma tragédia estivesse sendo anunciada. O apocalipse. Um replay de 1992 em proporções maiores. Um grupo que estava ao nosso lado ficou com medo e saiu. E eu pensei que o negócio era relaxar, afinal se a arquibancada caísse eu não escaparia. Morreria pelo Mengão, que coisa poética.

Apesar do pacote de nervosismo, tudo deu certo (graças a São Angelim) e saímos vivos e campeões, mas prometi a mim mesma que só volto a estádios em finais de campeonato de camarote. Tomando uma cervejinha e observando o perrengue de longe.

Sabemos que nem tudo é alegria no convívio com cachorros. Eles são carinhosos e companheiros, mas podem mudar de humor a qualquer momento. Assim, exatamente como o ser humano. Como sempre fui muito próxima de cães, sobraram mordidinhas aqui, arranhões ali e as belas cicatrizes, além das histórias divertidas (para os outros, claro) para contar.

A primeira mordida foi quando eu tinha uns oito, nove anos. Estávamos na casa de alguém em algum lugar (interior do RJ, provavelmente) e um grupo de crianças, incluindo eu, decidiu subir para o primeiro andar escalando o muro da casa. Ideia idiota, como muitas das que temos antes de descobrir o que é ser “racional”. Ou “inteligente”. Ao subir, as crianças decidiram aguardar do outro lado da grade e esperar pelo consentimento do dono da casa, pois havia um considerável número de cachorros lá dentro.  Menos a criatura que vos escreve. Como sempre fui macho pra cacete, resolvi pular logo a grade e invadir o terreno de entrada da casa. Os cachorros não aprovaram minha atitude, me punindo com quatro mordidas na bunda. Bem-feito pra espertona aqui, que ficou dias sem conseguir sentar direito.

Lembro bem da segunda. Uma família tinha acabado de se mudar para a casa ao lado e meu irmão e meu primo ficaram loucos pela filha do casal. Pediram para eu tocar a campainha e chamar a menina para, em seguida, chegar, numa sensacional “coincidência”. A missão teria sido um sucesso se a garota não tivesse um rat…, ops, cachorro insuportável que escapou pela brechinha do portão aberto e voou em minha bunda. Se bem conheço os dois, devem ter rido bastante e se aproximado da menina, ignorando minha dor lancinante.

As outras duas foram “familiares”, veja só. O Nick era um pastor canadense SINISTRO e MALVADO que comia criancinhas. Mentira, ele não chegava a tanto, mas, da família (mãe Branquinha – a minha favorita de todos os caninos – e irmã Shana), ele era o mais agressivo. Os três ficavam na garagem da casa, bem ampla, que era separada da cozinha por um portão baixo de madeira. Rá, quantas vezes não sacaneei meus amigos fingindo que ia abrir o portão. Já presenciei três tentando passar pela porta da cozinha ao mesmo tempo! Como eu ia escrevendo, Nick, um dia, decidiu abrir o portão e circular pela casa. Imaginem a minha surpresa ao chegar na cozinha e dar de cara com aquele lobo wannabe assustador me olhando e desejando minha carne suculenta. Acho que demonstrei tanto medo que a mensagem enviada a ele foi “me devore, ó cão esfomeado!”. Nick não chegou a me morder, mas me arranhou e eu saí correndo, fechando a porta e me escondendo. Nunca vou me esquecer daquele cão. Nem do momento de pânico absoluto.

Dusch era uma linguicinha muito mala que viveu conosco por anos. Quando pequeno, comeu vários chinelos meus. E um pente e uma caixa de anticoncepcional. Sente o naipe do surtado. Sentia ciúme doentio da minha mãe, especialmente comigo. Um dia, fui entregar o telefone pra ela e o bicho decidiu que eu era o inimigo, abocanhando meu braço. Parece que não, mas os dentinhos daquele ogro eram bastante afiados, pelo menos o suficiente para deixar um ovo em meu braço. Por precaução, passei a evitar minha mãe, mesmo morando na mesma casa.

Em Portugal, não há bilheteria no metrô. Há máquinas, somente. Em Lisboa, sofremos um pouco no início, mas depois pegamos o jeito. No Porto, a situação ficou periclitante. Ao pegarmos o metrô na estação de trem, percebemos que não só não havia bilheteria como vários aparelhinhos de validar ticket (como esses amarelos que vemos nos ônibus cariocas) ficavam espalhados pela estação. Para que tantos? Nós teríamos que ficar encostando o ticket toda vez em que passássemos por um? Que beleza, seria melhor ligar pra agente de viagens e pedir mais uns 15 dias, pra poder conhecer a cidade.

Logo de início, um senhor deveras simpático se ofereceu para nos ajudar. Tão gentil. Tratou logo de “ficar com” umas moedinhas só pra nos lembrar que tem gente esperta no mundo todo. Nas outras poucas incursões, pegamos o ticket, validamos em uma catraca e bola pra frente.

Dia de ir embora, que tristeza. Passeamos pela linda cidade e fizemos algumas comprinhas. Tomamos até Fanta de abacaxi, que inédito. O tempo foi passando (e você sabe que o tempo passa rápido quando a gente se diverte) e, de repente, percebemos que estávamos atrasados. Pegamos as malas no hotel e corremos para o metrô a caminho do aeroporto. Para chegar no destino, era preciso fazer baldeação. Saltamos na estação indicada e ficamos esperando o trem final.

Ah, sim, vale ressaltar que em TODOS os trens havia um display bastante indiscreto avisando ao passageiro que quem tentasse “burlar” o sistema de passagens pagaria 90 EUROS. Uma bagatela.

Entramos no vagão e demos de cara com um grupinho de fiscais com maquininhas na mão. Ficamos tranquilos, pois tínhamos comprado o ticket, mas rolou um certo frio na espinha quando um deles veio em nossa direção. O sujeito pediu os tickets e passou na tal máquina.

O horror. Sem saber, nós não tínhamos comprado a segunda passagem, assim estávamos fora da lei. Na Europa. Com pouco dinheiro. Atrasados para o voo.

Meu olho encheu d’água (espontaneamente) e implorei para o cara não nos multar. Explicamos que éramos do Brasil e não sabíamos como funcionava o esquema de validação dos tickets.

Não sei se o sujeito esperava um dinheirinho ou o que estava rolando, mas ele começou a apresentar várias alternativas, uma mais doida do que a outra. Eu já estava fazendo as contas, imaginando quanto teria que economizar por dia pra bancar o prejuízo. Depois de alguns minutos, pediu para que descêssemos na estação anterior à do aeroporto e comprássemos mais um ticket. Atrasados para o voo. O horror. E ainda ficamos um tempo esperando pelo próximo trem. Aí, já era pânico.

Chegamos no aeroporto correndo, esbaforidos. César foi segurar o voo enquanto eu fazia o check in. A atendente simulou um esporro, mas eu fui logo contando a história triste em tom de voz assustador e bastante irritado e ela parou. Só faltava essa.

Embarcamos com atraso, mas deu tudo certo.

Rogamos praga para o metrô do Porto e aquele fiscal safado até hoje.



  • Nenhum
  • César: Meu amor, favor me incluir entre os apaixonados por Lumiar. Precisamos agitar logo o nosso retorno. Aguardo as próximas histórias! Beijoca.
  • Erika: Nanda,vc e' demais.Whitesnake tambem passou a ser um marco em minha vida.Ouvia tanto que "apaixonei" tambem.Alem de me deparar toda vez que entrava no
  • César: Tim tim. Que orgulho da minha mulher. Além de linda, flamenguista e roqueira, ainda escreve bem demais. Voltei pra ler de novo. Parabéns pelo

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