Mi causo, su causo

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Ainda moleca, descobri os vinis. O que me encantou primeiro foi “A Arca de Noé”, criação do Vinicius de Moraes com diversos artistas nacionais cantando músicas fofas sobre bichos. Fantástico, mas, convenhamos, Elis cantando “A Corujinha” não é nada rock and roll.
Em seguida, veio a primeira porrada, o “Greatest Hits” do Queen. De tanto ouvir “Bicycle Race”, “Fat Bottomed Girls” e “Bohemian Rhapsody”, quebrei a bolacha. Nem preciso comentar que meu ex-padrasto, o dono, ficou revoltado. Mal sabe ele que aquele disco mudaria minha vida.

A verdade é que o rock sempre esteve presente. Das fitas cassetes que eu sabiamente surrupiava de meu ex-cunhado aos vídeos da recém-lançada MTV, eu sempre curti riffs de guitarra e cabelões esvoaçantes.

Quando cheguei à adolescência, comecei a andar com um grupo formado por aspirantes a rock stars, músicos genuínos e entusiastas. E foi aí que conheci o rock clássico de verdade: Deep Purple, Black Sabbath, Jethro Tull. Era impossível não prestar atenção, já que essa galera até gostava de música brasileira, mas nas viagens e festinhas só rolava rock. Lembro de um churrasco em que quase fui linchada por escolher meia dúzia de pagodinhos.
Não posso deixar de falar de minha paixão, Whitesnake. Comprando um CD aqui e outro ali consegui fechar a coleção. E desenvolver um amor verdadeiro pelo David Coverdale, que, durante muito tempo, enfeitou a parede do meu quarto com seu biquinho sensual. Acredito que a farofa tem que ser apreciada em todas as suas formas: da cheia de ovos às bandas cheias de luzes e permanentes!

O primeiro show foi da banda australiana Spy Vs Spy no finado Imperator, que ficava no Méier. Eu e dois amigos pegamos um ônibus até o Centro, outro de lá para o Méier e chegamos ao destino final. Malandrões que éramos, decidimos “começar os trabalhos” com cachaça, bebida que o orçamento suportava. Resultado? Um nariz sangrando, três jovens zuretas e um leve atraso pra entrar. O show foi ótimo, especialmente para os pirralhos que iniciavam sua carreira de shows de rock.

Num desses Hollywood Rock da vida, menti para a minha mãe e peguei o 409 pra Apoteose com minha melhor amiga. Acho que nunca me senti tão poderosa. Pulamos muito durante o show do Aerosmith, nos sentindo adultas über modernas e independentes. Joan Jett e Patti Smith perdiam.

Foram muitos. Diversos. Incontáveis shows. Rock clássico, BRock, heavy metal, indie, death metal, Paul McCartney (não há como categorizar o Macca), hard rock. Acredito que apenas o EMO esteja de fora (e que assim permaneça). Meu bolso que o diga.

Com esta palhaçada de carteirinha de estudante versus preços absurdos, pisei no freio. Com muita dor no coração, reconheço, afinal poucas coisas me dão tanto prazer quanto um bom show de rock. Ainda bem que restam o mp3, os CDs que não foram descartados e as noitadas embaladas pelos djs inspirados.

Brindemos ao rock.

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Quando completei 16 anos, resolvi comemorar com um churrasco/showzinho na garagem de casa. Como sempre gostei de ser do contra, não pensei em pagode, embora goste bastante. Chamei a galera pra tocar rock e metal. Numa rua de velhinhos, isso seria um must!

Os meninos chegaram mais cedo para fazer o reconhecimento de área. Me ajudaram a montar o palco e, em seguida, foram passar o som.

Nos primeiros acordes de “Highway Star”, música escolhida para abrir os trabalhos, eu achei que todos os vidros da casa se quebrariam. Fiquei em pânico e já visualizei a cena: Dona Vera chegaria bufando e berrando “PAREM AS MÁQUINAS” cheia de bobs nos cabelos, pronta pra xingar oito gerações de minha família (incluindo ela mesma).

Decidi me antecipar e ser poupada de um esporro fenomenal na frente dos amigos, então fui até ela pra tentar negociar ou, quem sabe, jogar um calmante light em sua bebida. Algo que pudesse apagá-la durante quatro horas, nada grave. Subi as escadas tremendo e percebi que a luz do banheiro estava acesa. Foi quando pensei numa segunda cena: Dona Vera com o batom borrado, me fuzilando pelo espelho  e ainda berrando “PAREM AS MÁQUINAS” cheia de bobs nos cabelos.

Entrei no banheiro esperando um arremesso de escova de dente ou algo do gênero. Foi quando tive a surpresa. Dona Vera se maquiava batendo a cabeça como se estivesse num show do Slayer. Quando me viu, disse:

– Nossa, Nanda, que som maneiro.

Acho que perdi, ali, uns 13 quilos de tensão.

Se não fosse pela vizinha ligando cinco vezes pra dizer que seu marido estava morrendo, teria sido sucesso absoluto. Mas ainda bem que não demos atenção a ela, que quase ficou viúva nos três anos seguintes, sempre em meu aniversário.

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Cabe mais uma rapidinha da Dona Vera. Entro no carro com ela e meu irmão e, como era de praxe, ligo o som. Estava tocando algum rock sensacional, como Whitesnake ou Led Zeppelin. Dona Vera, cheia de onda, pergunta:

– O que é isso? The Puppets?

Cá entre nós, este nome causaria muito mais impacto do que Deep Purple. Fica a dica, Gillan!



  • Nenhum
  • César: Meu amor, favor me incluir entre os apaixonados por Lumiar. Precisamos agitar logo o nosso retorno. Aguardo as próximas histórias! Beijoca.
  • Erika: Nanda,vc e' demais.Whitesnake tambem passou a ser um marco em minha vida.Ouvia tanto que "apaixonei" tambem.Alem de me deparar toda vez que entrava no
  • César: Tim tim. Que orgulho da minha mulher. Além de linda, flamenguista e roqueira, ainda escreve bem demais. Voltei pra ler de novo. Parabéns pelo

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